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Bebê afogado sofre profundo e irreversível dano cerebral. “Not on my watch” — diz Ciência

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Crianças tem algumas características bem interessantes. São quase mini-Wolverines, não só pela capacidade de destruição mas pelo fator de cura. Pode reparar, você não vê crianças com cicatrizes. Seus corpos estão no auge da capacidade de regeneração, e seus cérebros no pico da plasticidade, onde áreas podem ser reprogramadas para compensar danos, mas assim como Logan, há um limite para esse fator de cura.

Eden Rose Carlson ultrapassou esse limite, em muito. Com 23 meses de idade, seus pais cometeram o grande erro de achar que poderiam ter criança pequena E piscina em casa. Eden abriu o portão, e claro, caiu na piscina. Ninguém viu. Ela ficou entre 10 e 15 minutos boiando na água gelada. Quando a mãe a achou, começou a aplicar ressuscitação cardíaca. Em meia hora os paramédicos chegaram, e continuaram o procedimento, enquanto ela era levada para a Emergência. No total a menina passou duas horas sem batimento cardíaco.

A equipe da emergência não estava disposta a perder a paciente, e 20 pessoas se dividiam em volta da menina, administrando soro, sangue oxigenado, mantendo a massagem cardíaca e aplicando no total 17 doses de adrenalina até reiniciar o coração de Eden. Não, não teve “CLEAR! BBZZZTTT”. Não se usa desfibrilador em parada cardíaca, isso é coisa de Hollywood.

O coração voltou a funcionar, mas o quadro geral era aterrador. Os rins não funcionavam, o fígado não funcionava, a pressão sanguínea estava baixo demais para garantir a circulação, o pH do sangue estava errado e ela não reagia a estímulos. O diagnóstico era claro: Eden Rose havia sofrido danos cerebrais extensos.

Este é o cérebro de Eden, 3 dias depois do acidente.

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Ela ficou 10 dias ligada a um respirador, até sequer conseguir respirar sozinha. Novos exames mostraram que o estado da menina estava piorando. O cérebro de Eden estava morrendo. Em breve seu futuro seria sombrio, sua mãe chorava ao imaginar a filhar o dia inteiro postando comentários em portais de notícias.

O cérebro dela depois de 31 dias. As setas vermelhas indicam a área onde surgem os comentários “Sou do levante, tou com Maduro”. As setas verdes são “Bolsomito 2018”.

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Eden foi mandada para casa, mas não desenganada. No caso estavam o Dr. Edward Fogarty, da Escola de Medicina da Universidade da Dakota do Norte e o dr Paul Harch, Diretor de Medicina Hiperbárica da Escola de Medicina da Universidade Estadual da Louisiana.

Quando chegou em casa a menina não respondia a estímulos, não falava, as pernas ficavam encolhidas e ela era alimentada por sondas. Sob orientação dos médicos, ela passou a receber doses de oxigênio a 100%, via cânula nasal, duas vezes ao dia em sessões de 45 minutos.

Imediatamente Eden começou a melhorar, mas sua capacidade verbal ainda era inferior ao que era antes do acidente. Ela começou a rir de novo e a recuperar alguns movimentos, mas o Dr Harch não estava satisfeito.

78 dias após o acidente ele conseguiu organizar o tratamento hiperbárico, foi complicado pois não havia equipamento disponível onde os pais da menina moravam.

Durante 5 sessões de 45 minutos por semana Eden Rose foi mantida em uma câmara pressurizada a 1,3 atmosfera, respirando oxigênio puro. Os resultados apareceram logo após a primeira sessão. Depois da décima a mãe de Eden relatou que ela estava “praticamente normal”, exceto alguma dificuldade motora geral. Após 39 sessões a avaliação foi:

  • marcha assistida (andava normalmente com alguém ajudando. Normal);
  • níveis de fala maiores do que os pré-acidente;
  • funções motoras quase normais;
  • cognição normal;
  • melhoria em praticamente todas as anormalidades neurológicas;
  • encerramento de toda a medicação.

Ao final de 40 sessões, 162 dias após o acidente, o cérebro de Eden havia se regenerado quase completamente, ficando algum tecido de cicatriz mas a plasticidade dos cérebros jovens resolve isso sem problemas. Veja a ressonância, 3, 31 e 162 dias após o acidente:

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Eden Rose ganhou uma segunda chance, graças a um monte de gente, de sua mãe aos paramédicos, enfermeiras, motoristas da ambulância e pediatras. Nesse dia todos eles se lembraram da frase de Syrio Forel, em Game of Thrones:

Só existe um Deus, e Seu nome é Morte. E só há uma coisa que dizemos para a Morte: hoje não.”

O caso todo foi muito bem detalhado em um paper de título Subacute normobaric oxygen and hyperbaric oxygen therapy in drowning, reversal of brain volume loss: a case report. publicado no Medical Gas Research.

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